Filho de Xangô, esse calor me movia

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Por Ernesto Stock

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Ernesto Stock

Nunca vou me acostumar às despedidas. Cada vez que alguém parte ou cada vez que vou embora, me desespero. Choro todas as vezes. E carrego esta saudade para sempre. Cada vez mais uma saudade. E já me pesa um tanto delas.

Parece que nunca poderia viajar. Pelo contrário. Me alimento desses sentimentos e com eles leio os mundos que descubro. Esses mundos também vivem para sempre em mim. Me modificam e resignificam todo tempo minhas certezas.

A escolha de partir depois de tanto tempo consumido por uma rotina exaustiva era só questão de coragem. Um pouco de irresponsabilidade, talvez. Que só faz bem.

Resolvi ir de bicicleta, numa viagem do Oceano Atlântico ao Oceano Pacìfico, com o pretencioso projeto de investigar a elaboração do conceito de felicidade nos mais variados povos que visitaria. Ciganos, caiçaras, menonitas, guaranis, povos do altiplano andino etc…A pretensão da idéia e sua conformidade com minhas inquietações me excitava. Filho de Xangô, esse calor me movia.

Partimos. Digo partimos porque mais dois amigos aderiram ao plano, que já era nosso. Outros malucos, Douglas Eduardo e Guilherme Hoshino. Cada um com suas expectativas e motivações.

Partimos, então, da Ilha do Cardoso, litoral sul de São Paulo, dia 22 de Agosto, com destino a Tocopilla, litoral chileno.

Brasil

Atravessamos a Ilha do Cardoso e o Parque Nacional do Superagui, já no Paraná, encantados. Aquela ideia de liberdade, que depois seria colocada à prova, contagiava. Pedalávamos e encontrávamos pessoas como por mágica. No Superagui, seu Aires e suas 9 irmãs nos serviram café com biscoitos caseiros, sem nem nos perguntar o nome. Podíamos ficar o resto do tempo por ali.

Deixamos o Paraná, suas colônias e suas serras para trás, conhecendo tantos lugares e tanta gente que não cabia. Em Foz do Iguaçu, fomos tão bem recebidos pelo pessoal da Universidade de Integração da America Latina, que passaríamos por lá ao menos uma semana, mesmo que não tivéssemos tido problemas com a nossa documentação.

Paraguai

A maior surpresa do roteiro. Todo preconceito caiu por terra e o perigo que esperávamos era gentileza. Um banho de cultura em terras guaranis. Riscamos o país de leste a oeste. E só pagamos para dormir em Iguazu, uma surreal colônia japonesa na entrada do chaco, e em Asunción. De resto, solidariedade.

Vale especial atenção o Festival Internacional de Arte Callejera, evento que reunia artistas de rua de todo o mundo em uma profusão de habilidades e magias de deslumbrar. Três dias de encantamento. Também os corpos de bombeiros voluntários do país, que sempre nos deram apoio e nunca nos negaram abrigo ou banho, além da famigerada Chipa Leticia (descubram vcs mesmos rs)

A capital, Asunción, é uma cidade linda, que mesmo metropolitana e cosmopolita, cuida muito bem de seus costumes e tradições. Palmas para um povo que fora destruído por inúmeras guerras e que luta para manter sua lingua e sua cultura. Temos muito que aprender com eles. Tupy or not Tupy, that is the question, hermanos!!!!

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Ernesto Stock

Argentina

Escrevo ainda de Salta, Argentina. Digo escrevo porque aqui nos desencontramos um pouco, cada qual com seus motivos e expectativas. Ë bastante difícil compatilhar, ainda mais a liberdade, tão buscada e controversa. Talvez este seja o segredo. ¨A felicidade só tem senttido quando compartilhada¨, sentecia Christopher McCandless, no livro escrito por Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem.

Estamos há poucos quilómetros da fronteira com o Chile, ansiosos para seguirmos. O Douglas teve seu passaporte roubado, o que nos deteve aquí por mais tempo que esperávamos. No mais, acabamos por conhecer e explorar toda região que vai de Jujuy a Cafayate, da Quebrada de Humauaca a Quebrada de las Conchas. Uma região deslumbrante e com uma geografia única, repleta de serras coloridas e formações rochosas impressionantes.

Para chegarmos até aquí, percorremos cerca de 1500km através das províncias de Formosa, Chaco, Santiago del Estero, Salta. Cada qual com sua geografia e suas peculiaridades. Dormimos em praças, coretos, acampamos nos quintais e por vezes, pagamos um hotel.

Poderia (eu) passar dias aquí descrevendo lugares e indicando hostels e seus preços. Ai trabalharia para o Lonely Planet. Esse nunca fora o objetivo. O encontro e a viagem enquanto troca, em todos os seus níveis de experiência e sensações, sobretudo pessoas, esse era.

Maria e A Virgem de Milagros.

Um dia antes de chegarmos a Salta, com pressa, escolhemos um atalho por uma estrada de terra que parecia nos poupar 20 quilómetros. Ledo engado. O começo, que parecia perfeito, com direito a banho no Rio Juramento e uma paisagem estonteante cercada de montanhas, deu origem a uma saga. Pedalamos cerca de 100 quilómetros por uma estrada de terra bastante difícil e com uma subida constante. Quando eram 22:00hrs, depois de pedalar 10 horas, resolvemos buscar abrigo e comida no pueblo de ¨Las Trojas¨, pequeno povoado no alto da montanha com cerca de 30 casas. Parecia impossível encontrar alguma coisa .

Havia uma única venda no lugar, que obviamente estava fechada. Exaustos e correndo o risco de sermos muito inconvenientes, apelamos para as palmas. A porta se abriu como uma miragem e um casal de senhores perguntou o que desejávamos. Contamos nossa história e em poucos minutos, Maria, nos convidou para entrar e nos preparou um café com ovos, chá, pão e muita atenção. Não quis cobrar por nada.

A casa era muito simples, com três cômodos, um deles uma sala que servia de mercado. O banheiro, sem água encanada, ficava do lado de fora. Um pequeno quintal com uma mesa que logo fora completo por cadeiras. Nos sentamos ali, junto com nossa anfitriã, alguns cachorros, galinhas e um bezerro. Ela amamentava o bezerro desde que a vaca morrera. E assim tinha que ser.

Nos assustamos quando descobrimos que ainda faltavam 65km. Nosso mapa estava errado. Maria fazia aquele caminho todo ano, há dez anos, desde que seu filho se curara. Promessa em agradecimento à graça concedida pela Virgen de Milagros. Ele tinha câncer de pulmão e fora desacreditado pelos médicos. Seus olhos encheram de água quando lembrou que, em desespero, decidiu caminhar até Salta, cidade onde fica a catedral que abriga a imagem da santa. Seu maior medo era de que o filho morresse enquanto caminhava e ela não soubesse de sua morte. Levou um rádio e durante todo dia caminhava escutando uma transmissora local. Se ele morresse, ela saberia.

Quando enfim, 3 dias depois, chegou a cidade e se pôs de joelhos frente a imagem da sua fé, teve certeza que seu filho se curaria. Ele agora trabalha em uma rede de supermercados próximo a imagem da santa que o salvara.

Dormimos na calçada, em frente à sua casa, recusando o convite de dormir dentro da casa, com receio de incomodar mais do que já haviamos. 20 minutos depois, fomos despertados por um chamado. Maria nos trazia 3 imagens da santa em papel acompanhadas de uma oração. Elas nos protegeriam. Que seguíssemos em paz. Nunca tivemos tanta certeza. Em choque, percorremos o restante do caminho que agora parecia bem mais curto.

Chegadas e Partidas

Embora saiba (note a primeira pessoa) que o destino final da viagem esta bem próximo, tenho mas certeza que nunca que isso é o que menos importa. Chegamos e partimos todo o tempo, de todos os lugares. O que nos resta é aprender com o caminho que une estes dois estados e compreender o movimento. Me alimentar da saudade que hoje tenho da Maria e do bem que quero pelo seu filho, embora nem o conheça. Ele hoje faz parte desta história. Ele hoje vale mil viagens. Hasta¡

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Ernesto Stock

 

Para quem quiser saber mais sobre a viagem do Ernesto Stock, acesse http://projetofelicidade.zip.net/


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