A história de um Vagabundo

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A Casinha Jovita foi o nosso lar durante a temporada de verão em Montañita – Equador. E “era uma casa muito engraçada…” vivíamos em uma harmonia transcendental, em uma constante troca de aprendizagem… e o “Bundo”, nome completo, Vagabundo, foi mais uma delas.

Uma tarde daquelas bem quentes de um clima tropical da “metade do mundo”. Uns estavam estirados em suas respectivas cadeiras, uns na rede e outros no chão. Nós preparávamos nossos típicos bolos, de cenoura e chocolate, para sair na hora do pôr do sol e vender.

O portão da casa estava aberto como sempre e, de repente, um cachorro entrou como um tiro! E como se conhecesse perfeitamente a casa, se meteu pelos corredores e entrou no último quarto, embaixo de uma das camas.

Nós, sem entendermos nada, fomos tirar o cachorro de lá. Ao entrarmos no quarto já percebemos um cheiro bem
desagradável. O coitado estava muito assustado e, depois de muito esforço, conseguimos acalmá-lo e tirá-lo com um pedaço de pãozinho. E aí veio a surpresa…

O “Bundo” estava morrendo…

O pobrezinho tinha um buraco na parte superior do pescoço, um buraco muito profundo, com sangue, do qual estavam se alimentando centenas de larvas. Um cheiro de carniça fortíssimo e as moscas não paravam de perturbá-lo. Uma cena forte.

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Carol cuidando do Bundo

Depois de algumas ânsias, espasmos e peles arrepiadas, a Carol decidiu ir buscar ajuda nos vizinhos. Um deles veio ver o cachorro e trouxe um spray, justamente para isso, a “bicheira”.

Atamos o Bundo em uma coluna e, com dificuldade de mantê-lo calmo, passamos o medicamento. Em cinco minutos, eram centenas de larvas se contorcendo e saindo da ferida.

Quando ele já estava mais calmo, soltamos o pobre na rua outra vez.

No dia seguinte, a Carol caminhava pelo povoado e cruzou com o cachorro outra vez, ele a seguiu até a casinha e decidimos cuidar do bicho de vez.

Uma confusão tremenda! Não sabíamos por onde começar, e depois de algumas discussões e tentativas de ajudas frustradas de uma vizinha, o Ivan e o Léo decidiram levar o cachorro caminhando até Olon; o povoado ao lado, onde disseram que havia um veterinário.

E, após uns 40 minutos caminhado com o coitado se sacudindo e jogando sangue para todos os lados, chegaram ao veterinário. Aí começou toda a magia da novela.

O Ivan começou a explicar a história para o veterinário, dizendo que havíamos mobilizado algumas pessoas para ajudar o cachorro. Ele olhou, disse que mais dois dias e o animal estaria morto, mas que não podia ajudar a todos que viessem pedir ajuda. E que cobraria a consulta sim ou sim!

Sem saber o que fazer, Ivan e Léo se olharam e, nesse momento, se deram conta de que uma mulher havia entrada junto na sala do veterinário e escutou toda a história. Com uma firmeza incrível, ela se dirigiu ao profissional e disse:

- Então os meninos tomam conta do cachorro, você cura o que tem que curar e eu pago todas as consultas!

Pronto! O cuidado do Bundo ia ter uma ajuda completa!

Na sala de atendimento, o veterinário fez todo o processo e os meninos ajudaram. Não entraremos em detalhes disso porque a coisa não foi agradável, mas resumindo, foi uma pequena cirurgia.

A mesma senhora que ajudou, trouxe os 3 até a Casita Jovita, pois o pobre estava anestesiado e não podia caminhar.
Dormiu toda a noite e, de manhã, quando fomos ver se estava tudo bem e trocar os curativos já havia fugido. Afinal, é um Vagabundo!

Enfim, encontramos Bundo na praia no final tarde enquanto vendíamos as tortas. Levamos ele pra casa e ele se portou bem até o outro dia que tínhamos que retornar ao veterinário.

O retorno foi tranquilo, o profissional limpou a ferida e conseguimos voltar com o cachorro na caçamba de um caminhão, pois estava anestesiado outra vez.

Tentamos ter o cachorro em casa para cuidá-lo, mas é um vagabundo da rua e decidimos deixar ele livre e que, se quisesse ajuda, voltaria para cuidarmos.

Desfecho…

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Nosso companheiro Bundo

Ganhamos um grande companheiro. Todas as tardes o Bundo vem até a casinha para fazermos o curativo, comer algo do dia e ganhar um pouquinho de amor. Depois se vai, depois volta… umas noites dorme com a gente, outras não.

E nós… nós aprendemos mais um grande lição de vida.

Estamos na nossa zona de conforto. Se estivermos precisando de ajuda, morrendo e com um cheiro desagradável, nossa família e amigos vão nos ajudar. Mas um ser desconhecido, um ser da rua, veio nos pedir ajuda. Muitos não queriam encarregar-se do pobre animal sujo e lastimado, e também pensamos muitas vezes antes de levar até o final toda a história.

Obrigado, Bundo! Por nos resgatar a chama humana do esquecimento. Cuide-se e vê se não arranja mais encrenca!


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